Respiros Poéticos: percursos, poesia e materialidades / como surgiu o projeto

Esta experiência foi inicialmente pensada em coletivo durante o planejamento do segundo número da revista Miolo, da editora de livros experimentais, Tiragem: Laboratório de Livros, em 2019. Naquela ocasião foi me apresentado o livro de Guilherme Cunha Lima, “O Gráfico Amador”, e a vasta possibilidade do designer enquanto artista e poeta. Geralmente os designers são chamados para diagramar textos e/ou conteúdos produzidos por outras pessoas. O desafio era atuar como escritora, experimentar outros campos artísticos, como a literatura, e torná-la parte do meu processo criativo: pensar a poesia para o espaço da página através da interrelação de diferentes formas artísticas, das relações intermidiáticas, criando diálogo conceitual entre o elemento visual e as palavras. 

No primeiro momento, o objetivo era descobrir a cidade, coletar dados, entrevistar mestres tipógrafos da cidade de Salvador e vivenciar o local de trabalho destes. Essa perspectiva veio da necessidade de fortalecer os elos entre a universidade e a comunidade, sobretudo na troca com outros saberes. Assim também surgiram as primeiras poesias: dos trajetos e pessoas. Naquela ocasião, visitei o Mestre Arlindo Souza, na Ladeira do Taboão, Salvador. Ele me falou da sua trajetória com tipografia, que se iniciou em 78, mostrou‑me seus tipos móveis e até ligou as máquinas.

Assim, inspirada pela recém descoberta do movimento do Gráfico Amador e tipografias artesanais, comecei a trabalhar segundo a perspectiva de experimentação gráfica com tipos, de processos, linguagens e outras formas de fazer. Segundo Lima (2014), entre os anos de 1954 e 1961, um grupo de intelectuais, ilustradores, escritores, editores, poetas e artistas, autodenominado Gráfico Amador, produziu em Recife, mais de 30 obras que vieram a se tornar marcos na história contemporânea da literatura, da arte e do design do Brasil.

O grupo desejava publicar seus próprios escritos e o circuito editorial não era acessível. Esse coletivo trabalhava com a prensa manual e tipos móveis, publicando textos literários, especialmente poesias. Algumas tiragens eram até assinadas. Ao longo dos anos, o Gráfico Amador, publicou autores como Carlos Drummond de Andrade, Ariano Suassuna e João Cabral de Melo Neto, todos membros do coletivo. 

Para Bonan (2017, p.4), o Gráfico Amador representa uma tentativa, em pleno os anos de 1950, de busca por um design “nacional”, mais próximo à linguagem da cultura popular, em um momento em que a influência construtiva se fixava no Brasil no campo estético.

Uma oficina que explora as técnicas de impressão manual e reverencia a ilustração, que por sua vez salta aos olhos pela sintonia com a cultura popular pernambucana, em oposição às tendências construtivas que chegavam ao Brasil, por influência da Bauhaus e da Escola de Ulm. 

(BONAN,  2017, p. 6)

Embora tenha durado poucos anos, o Gráfico Amador influenciou a relação da literatura com as artes gráficas no Brasil. Nas obras do Gráfico Amador é possível notar a escolha dos tipos, disposição de linhas, uso dos espaços em branco e disposição do texto na página. 

Já segundo momento do projeto se desenvolveu a partir de vivências e experimentações em percursos formativos que me levaram a investigar o objeto livro em outros desdobramentos, através da relação têxtil e editorial, entre bordado e escrita, contemplando áreas de literatura, suportes, materialidades e fotoperformance. Escritas poéticas tornaram-se escritas subjetivas: percursos pessoais, do próprio encontro para materializar intertextos pensando na dinâmica temporal de desaceleramento. Assim, “Os Outros”, foi uma experimentação têxtil editorial que resultou em dois desdobramentos de livro-objeto. 

Respiros Poéticos é, portanto, desde o seu surgimento, um espaço de experimentação livre em poéticas e materialidades diversas, que envolve o diálogo entre design, artes visuais e poesia.

Referências

BONAN, Amanda. Gráfico Amador. Catálogo da exposição realizada na CAIXA Cultural São Paulo. 1. ed. Rio de Janeiro: Editora Circuito. 2017. 

LIMA, Guilherme Cunha. O Gráfico Amador: as origens da moderna tipografia brasileira. 2. ed. Rio de Janeiro: Verso Brasil. 2014.

Orientação: Taygoara Aguiar, Linha Cunha, Laura Castro e Evandro Sybine.

Tipos, tipografia e impressão: Evandro Sybine.

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