Jardim, Portas e Labirinto

Este é um projeto de fotoperformance materializado em 2020. Surgiu a partir do livro de poesias “Jardim, portas e labirinto” do mesmo ano, autoral e em processo de edição, pautado na experimentação de escrita durante o período de isolamento pela Covid-19. Desde o primeiro dia em que me recolhi à minha casa, em março, comecei a escrever poesias. Começou como um diário, que permaneceu ativo durante 120 dias, até quando silenciei. Em agosto, retornei ao arquivo, lendo os textos e imaginando as projeções encarnadas nos versos, quando, enfim, surgiram as imagens __________ encarnações das poesias.

O jardim {início do ciclo}
Portas {encruzilhada}
Labirinto {retorno}

(XI)

Numa noite eu (quase) me afoguei.
Fechei os olhos, a água em meu peito,
como um sujeito que implora pela morte. 
A água me alcançou os olhos e não mais respirei.
Um grito que sufocava tornou-se suspiro. 
Eu afundei. Remei. Busquei. Desapareci.
A realidade se tornou penumbra, 
ou (se)não, uma tentativa antiga de mim.
Assim, eu termino a jornada, levada ao fundo…
Meu ar se esvai e a realidade cai em meu peito, por fim, (ao)/(a)fundo.
Quando deflago meu derradeiro fôlego percebo que não me aflige, 
eu apenas não sinto o ar = na mesma medida não preciso dele. 
Eu desapareço, esqueço, percebo que me perdi lá, 
que morei lá por dias, 
quando a chuva derrubou o jardim e a água invadiu tudo. 
Eu não mudo. Juro que poderia me mover, mas sem perceber, eu permaneço.
Ao final do terceiro dia, abro os olhos, como se tivesse acabado de descobrir o mundo. 
A sensação diurna, do sol em meu rosto, o sal na língua. 
(Desperto). Dia claro. Cheiro amargo.
A água que havia secado = casa que é deserto.

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