Inventário poético multilinguagens / Antologia, 1° edição

Fotografia: Juci Reis
Fotografia: Juci Reis

Inventário poético multilinguagens é um projeto de vivência literária e de escrita expandida, através de mídias e suportes diversos. Tem como base central experimentar processos de criação intermídia, que envolvam o diálogo entre literatura e poesia; artes gráficas e visuais, enquanto campos de autoria compartilhada. A primeira edição do projeto resultou na construção de uma antologia, no formato de obra virtual, física e audiolivro, compondo um acervo literário contemporâneo e acessível aos públicos. Engloba a produção de 8 mulheres de múltiplas linguagens da Região do Cariri, especialmente da cidade de Crato. São elas: Livia Nascimento, Shayna Moura, Bianca Rolim, Hellen Ferreira, Kalinny Nogueira, Stephany Alves, Patrícia Pinheiro e Eduarda Flor. O projeto tem a coordenação e curadoria de Zulmira Correia e Juci Reis e é apoiado pela Secretaria de Cultura do Crato por meio do Edital de Seleção Pública de Patrocínio de Projetos Culturais.

As ações do projeto foram divididas em etapas construtivas e continuadas, as quais destacam: (1) ação educativa de experimentação em escrita, processo criativo e compartilhamento de vivências literárias; (2) dinâmica sensorial de registro, oralidade e memória; (3) criação autoral. Portanto, as obras se manifestam a partir de estratégias de diálogos entre a produção escrita, poética e imagem, configurando uma publicação que expande o campo cognitivo de criação e partilha coletiva. Através dos encontros virtuais e processo de curadoria, conectamos o presente às memórias matriarcas, com métodos expansivos de escrita. 

As temáticas abrangem questões inerentes ao processo criativo de cada uma das participantes, destacando as relações afetivas, ritualísticas, ancestrais e de memória nas obras. São narrativas e vivências femininas, atravessadas a nível familiar por personagens que sustentam uma trama fenomenológica, sensorial e subjetiva e se amplia na construção de um acervo patrimonial da história da cidade de Crato, por meio das memórias familiares. Nesse sentido, diante da pandemia do Coronavírus, que impôs a realização de atividades não presenciais, estar em isolamento social e restritas ao ambiente da casa, desperta reflexões do próprio encontro, feminino e poético. As obras evocam, portanto, sentimentos profundos, da intimidade das próprias autoras e por isso, os resultados são diversos, apresentados na publicação, através da perspectiva de “livro-afeto” e “livro-memória”.

Adquira gratuitamente o livro digital

Mulheres narradas / Zulmira Correia

Evocar memórias é uma experiência de encontro pessoal, materno, externo, interno, antigo, presente. Evocar memórias femininas e matriarcais é um processo ainda mais profundo. Demonstra uma ligação que se costura há gerações (séculos, milênios):  linha, linhagem de mulheres narradas. 

Pensar no conceito deste projeto, bem como em seu desenvolvimento, foi uma imersão dentro das nossas relações afetivas e vivências: imaginamos uma estrada comprida-curvada-longa, um corredor permeado de portas, sendo cada uma delas, uma possibilidade, uma lembrança. 

Caminhar através dessas memórias me aproxima dos meus próprios escritos poéticos, pois registrar memória no papel é o mesmo que manter vivo os fragmentos delas (de nós), para a eternidade. Convidamos, assim, as vozes maternas, unidas de forma umbilical: um percurso de se reconhecer e se perceber no espelhamento dessas pessoas (mulheres), (e delas): tias, mães, irmãs, avós, bisavós…

Exercício para liberar bloqueios de memórias: coluna vertebral ereta, ombros retos, do abdômen ao pulmão, nariz e boca (respirar: inspira, expira). Ar que circula do abdômen ao pulmão, entra pelo nariz e sai pela boca (respirar: um-dois-três) O que nos lembramos? Como nos moldam essas memórias? 

Imagem e palavra cêntrica: determinar características para chegar ao lugar da memória e se conectar: retornar ao passado, sentir as imagens, transpor em palavras. Desenha-se um círculo, pinta-se cores (laranja, verde, vermelho, e, por vezes, o cinza do esquecimento). Fechar os olhos e energizar palavras; elevar a coluna e respirar memórias.

Palavras cêntricas: multipotencial, segura, sonhadora, flexível, multifuncional, determinada, adaptável.

Se conectar a cada um delas: voz, cheiro, perfume, tato, visão. Visualizamos a cadeira de balanço, o vestido florido, as flores no jardim, a antiga melodia do rádio. E elas cantarolam conosco, vozes de gerações. São existências revolucionárias. Nesse processo, derramamos algumas lágrimas de saudades; é inevitável. A emoção demonstra nossa conexão. Mulheres múltiplas, multi-potenciais, multi-funcionais. Respiramos mais uma vez, repetimos o processo: como as tuas cores se pitam aos meus olhos? Conectar pelo pensamento, o espaço se modifica: frequência – tempo – energia.

Métodos expansivos de escrita: (1) escrever cartas; (2) escrever no papel e enterrar; (3) mergulhar o texto numa bacia de água; (4) oralidade; (5) diário; (6) conversar e ouvir.

Inventário poético multi-linguagem: A escrita do corpo / Juci Reis 

Quando nasci, as raízes dos meus pés estavam tão profundas que se encontravam com a dela. Por isso a reconheço. Jandira chegou num dia de feira, quando o sol despontava, e abriu o espaço para o aluarar minguante. Não a conheci fisicamente, mas posso sentir sua existência. 

Sim, era mais alta que eu. Está na altura dos meus medos e arrebenta minha coluna, até chegar ao ponto que deixo de existir. Minha mãe, certa vez, me contou que a sua força vinha dela, por isso seguia caminhando. Se raiz é nutriz e receptáculo, pode ser que até hoje Jandira esteja em mim. 

Pensar no Inventário Poético Multilinguagens, projeto idealizado pela artista Zulmira Correia, é reconhecer a existência na consciência. Qual a relação de fazer uma curadoria sensorial, se as interposições ou sentimentos arraigados não podem ser liberados nos atos? Fui em busca da existência da minha vó materna, para transcender meu ato. Busquei em minhas memórias suas marcas e caminhos, para entender que todo sofrimento que ela experimentou para existir, pode ser transmutado em poesia. Fenômenos que o tempo marca com faca, com golpes secos, com razão, sim. Nunca foi fácil existir em tempos de medo. Nem sempre foi fácil para ela. Gritar 

Existo!

Inventar é recordar das experiências perdidas, ou das circunstâncias que a rotina desenhou em simetrias diversas. Meu pé esquerdo é maior! Sinto dor de cabeça! Lembro bem pouco da minha infância! Minha mãe morreu! 

Ter um instante para pensar no que significa ser mulher, na matriarcalidade, em meio a tantas circunstâncias adversas, e diagnosticar as aquisições exageradas que o contexto nos permite validar. Saber das histórias pretéritas, para reformular um futuro do presente mais que perfeito e parar o tempo. 

Aqui vos digo que para inventar uma escrita, muitas vezes, temos de exagerar, pairar como uma pluma no vento, ou navegar lento. Recordar que existe uma voz perdida no fundo do mar.  

Pausar!

Inspirar e expirar, soltar o ar do mais profundo recôndito do nosso corpo cansado. 

Por que, muitas vezes, é preciso observar o corpo. Dizem por aí que o corpo fala, é provável que sim, porque as palavras surgem quando incitamos um baile, um canto ou até quando choramos. Liberar a escrita presa na memória, abrindo espaço para que a mesma exista, mesmo que não linear.  

FICHA TÉCNICA

Organização: Zulmira Correia

Curadoria: Juci Reis e Zulmira Correia

Identidade visual: Zulmira Correia

Projeto gráfico e diagramação: Zulmira Correia

Fotografia: Juci Reis

Revisão de texto: Aline Ede

Edição de áudio: Luiz Araújo

Narração: Zulmira Correia

Colaboração: Juci Reis (Flotar Programa)

Apoio financeiro: Este projeto é apoiado pela Secretaria de Cultura do Crato por meio do Edital de Seleção Pública de Patrocínio de Projetos Culturais.

Compartilhe: